Algumas considerações sobre os protestos no Brasil.

Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto

 O aumento na tarifa do transporte urbano gerou, desde o começo de junho, uma onda de protestos na cidade de São Paulo, que se intensificaram a partir da segunda-feira, dia dezessete, e se espalharam por todo o país. Mesmo com a revogação do aumento da tarifa em São Paulo e em diversas outras cidades, não cessaram os protestos, que ganharam novas bandeiras: corrupção, gastança nos estádios, homofobia, PEC 37, saúde e educação. Um movimento legítimo e importante para o fortalecimento de qualquer democracia.

Por fim a presidenta Dilma Roussef, em 21/06/2013, em cadeia nacional, respondeu positivamente às demandas exigidas pelos cidadãos nas ruas, acenando para o atendimento delas, chamando governadores e prefeitos para um grande pacto nacional em favor da melhora dos serviços públicos. Ao mesmo tempo, vários prefeitos recuaram nos aumentos das tarifas. Nesse caso, era a hora dos protestos terminarem e os manifestantes irem à mesa de negociação, o que não ocorreu. Ao mesmo tempo, a cada dia existe um aumento na escala de violência provocada por alguns manifestantes mais exaltados, que crescem a olhos vistos. Ameaçando a segurança pública.

Essa situação de um movimento difuso e sem liderança clara, que protesta e repudia os grupos organizados (partidos e sindicatos), mas não oferece formas de organização alternativas, não conseguindo sequer impedir a infiltração em suas fileiras de agitadores e baderneiros, é preocupante. Partidos políticos são essenciais para a democracia, sem eles temos o caos, ou a implementação do partido único, todo poderoso. Analisando o que ocorreu na Argentina e na Somália recentemente, podemos deslumbrar o que poderá ocorrer com o Brasil caso aqueles que protestam continuem a protestar infinitamente, sem nunca se sentar à mesa de negociação: ao invés do país dos sonhos que querem construir, poderão destruir tudo o que alcançamos de estabilidade econômica e política em nossa jovem democracia. Com isso acabam é lutando contra as conquistas conseguidas pelos mais pobres nos últimos anos.

Na Argentina, em 2001, o povo argentino tomou as ruas em protesto, aproximando-se do centro do poder do país: a Casa Rosada e o Congresso Nacional.  O povo não gritava contra um político em específico, ou mesmo por uma proposta qualquer. Mas contra a Corte Suprema de Justiça, o presidente,  senadores e deputados. O lema é “Que se vayan todos“. Mas ninguém realmente propunha nada para quando todos se fossem. Houve pequenos incêndios e quebra de cristais e mobiliário.  Por fim o presidente renúnciou, e o que veio a seguir? Não foi um idílico país governado pelas massas, mas a pior recessão economica da história da Argentina. E, no vaco de poder, vieram os Kirchners, até hoje no poder, suprimindo os movimentos sociais, a imprensa, e incapaz de tirar o país da pior recessão econômica de sua história.

Na África temos um exemplo mais radical de repulsa ao governo e suas instituições, a Somália. Desde 1991, nesse país não existe mais governo, sistema judiciário e de segurança (polícia e forças armadas). A Somália atualmente é uma nação sem partidos políticos e sem polícia, é verdade, mas com a maior taxa de mortalidade infantil do mundo, guerras constantes entre facções paramilitares, piratas, menos de 20% da população alfabetizada, nada de hospitais, transporte público ou educação.  Um país dividido entre grupos feudais em constante disputa.

Não estou afirmando que o Brasil caminha para esse tipo de cenário, espero que não. Temos uma democracia bem estabelecida, graças à ação de Sindicatos e Partidos Políticos na luta contra a ditadura militar. Nos últimos anos conseguimos a estabilidade econômica (governo FHC/PSDB), milhões foram tirados da miséria e adentraram na classe média (Lula/PT), e por fim marchamos em direção a investimentos necessários em infraestrutura e logística (Dilma/PT). Não que nesse meio tempo não houvesse casos de corrupção ou que não há ainda muito o que fazer. Mas, a direção a seguir por mais investimentos em áreas prioritárias – educação, saúde e infraestrutura – passa pelo estado de direito legalmente constituído, eleito diretamente por voto popular.

Na última semana vimos diversas cenas de destruição do patrimônio público e privado, pessoas mascaradas cometendo abusos, uso de técnicas e armas de guerrilha (como os famosos coquetéis molotoves), etc. Podem, e espero que sejam, atos isolados. Mas a verdade é que, como o filosófo Thomas Hobbes (1588-1679) já enfatizava queexiste uma constante guerra de todos contra todos” por recursos, sendo que “o homem é o lobo do homem”, ou seja, sem governo (e nesse caso sistema judiciário e de defesa), nossa tendência seria o conflito constante. Ou seja, sem Estado e sem polícia, a tendência seria o constante crescimento de atos de vandalismo. O caos tende a gerar ainda mais caos, ou o seu extremo, o fascismo, pois, em uma situação geral de insegurança, a população poderia exigir intervenção militar, e aí retrocederíamos em relação às conquistas que tivemos nos últimos trinta anos.

Isso quer dizer que os movimentos sociais não deveriam existir? Claro que não. O que se deve ter em mente é que existe um momento em que as lideranças desses movimentos devem ir à mesa de negociações e chegar a um consenso sobre as reivindicações e como estas serão atendidas. Caso isso não ocorra, temos a revolta pela simples revolta, sejam as bandeiras as mais pertinentes ou não.  Não é possível ter-se um clima de instabilidade constante, logo a instabilidade será sentida na economia e na vida diária das pessoas, ninguém quer isso.

Agora, em um movimento sem líderes, como se afirma, com quem negociar? E o que negociar? Maior investimento em educação? Luta contra a corrupção? Fim dos impostos? Passe livre? Copa do Mundo? Há tantas demandas, e pequenos grupos se aproveitando para aparecer, que é difícil negociar qualquer coisa, inclusive demandas contraditórias, como fim dos impostos e maior investimento em educação e saúde. E dialogar com quem? Não dá para falar com milhares de pessoas.

Ainda assim a presidenta conversou com alguns representantes destes movimentos (que afirmam não ter representantes), e no dia 24/06/2013, convidou os 27 governadores e 26 prefeitos de capitais para uma reunião no Palácio do Planalto e a adoção de cinco pactos nacionais (por responsabilidade fiscal, reforma política, saúde, transporte, e educação). Inclusive com a possibilidade de um plebiscito. A Câmara Federal aprovou o destino dos royalties do petróleo: 75% para a educação e 25% para a saúde. O que representa uma vitória política importante para o Brasil. Essa era uma batalha antiga da presidenta, que agora se torna possível.

Apesar de todas estas conquistas ainda vemos movimentos daqueles que não querem deixar as ruas. O que seria um retrocesso, agora é hora para parar os protestos e conversar, caso contrário a instabilidade política gerada, poderá gerar instabilidade econômica. Existe o momento de lutar, mas também o de conversar; é sábio saber quando devemos lutar, e mais sábio ainda quando sabemos o momento de conversar.  É hora agora de conversar, de negociar, antes que não se possa mais voltar atrás. Um país não pode sobreviver em meio a protestos constantes, agora era hora de deixar as instituições democráticas trabalharem.

Caso a violência cresça ainda mais, o movimento perderá legitimidade, e em vez de uma marcha histórica por um Brasil melhor, poderá ficar na história como o início de um processo de desestabilização política e econômica da nação. Temos governos (federal, estadual e municipal) eleitos e instituições democráticas consolidadas, não é hora de colocar tudo isso a perder. Queremos um Brasil melhor, é claro. Mas queremos ser a próxima Argentina ou Somália?

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Sequência Didática: Meu outro eu.

Objetivos:

  • Identificar a “si mesmo” como indivíduo que faz história.
  • Compreender como nosso mundo funciona, a partir da reflexão de nossas pequenas atitudes que influenciam a organização do ambiente a nossa volta.
  • Compreender e usar a narrativa literária como objeto de auto-reflexão.

 

Conteúdos:

  • Produção Textual;
  • Narrativa;
  • Identidade;
  • Compreensão do Mundo.

Ano: 4ª Série ou 5º Ano.

Tempo: 6 horas aula.

Desenvolvimento:

1º Etapa:

  • Fazer a leitura do livro “Cara! Eu tenho um duplo”. A leitura deve ser feita em no mínimo dois dias. Ver resenha ao final deste post.

2º Etapa:

Discussão sobre o livro e os conceitos de Universo Paralelo e Duplo.  Apenas como recurso literário, não exagerar na física quântica. Afinal são crianças de 10 anos. Ver definições no final deste post.

3º Etapa:

Explorar com os alunos através de leitura de pequemos trechos no quadro negro o discurso em primeira pessoa e o trabalho com o narrador-personagem.

Enfatizar a existência do narrador personagem e o seu duplo (narrado por ele). Estrutura que o aluno deverá repetir em seu texto.

4ª Etapa:

Produção de um texto em que o aluno viaja a um universo paralelo e encontra seu duplo.  O aluno deve enfatizar as diferenças entre ele e o seu outro eu, e sua cidade e a do Universo paralelo. Mas sem grandes exageros.

Avaliação:

Discutir coletivamente o texto. A discussão e leitura devem ser direcionadas na reflexão do conteúdo da história e não para questões ortográficas.

Material de Apoio

Resenha:

GREENBURG, Dan. Cara! Eu tenho um duplo! Trad. Heloine Prieto. São Paulo: Ática, 1996. (Coleção Arquivo Z)

Nesta novela Zaca descobre que o armarinho do banheiro é a porta para um universo paralelo. Lá ele encontra seu duplo, o Zeca, e acaba tendo que viver uma aventura extraordinária, já que Zeca foge para nosso universo, e deixa Zeca prezo no seu. O romance termina com uma sensacional revelação envolvendo os pais dos dois garotos. Vale refletir sobre as sutis diferenças entre as cidades dos dois universos, o de Zaca e o paralelo, e dos próprios personagens.

Universos Paralelos:

É um conceito que deriva da ideia de existência de um Multiverso, como previsto por certa leitura das teorias da inflação cosmológica, ou seja, a ideia de que além do alcance de nossos telescópios existem outras regiões do espaço que parecem idênticas a nossa. Para muitos cosmólogos alguns destes Universos poderiam até ter leis físicas diferentes do nosso. Em outros casos podereia haver infinitas possibilidades de existência de outros ‘Eus’ de nossos mesmos, vivendo pequenas variações de nossas vidas. Assim, em um destes universos, este autor, por exemplo, em vez de professor, ingressou no serviço militar. Basicamente esta é a idéia que perpassa a história do livro. Ver texto de nossa autoria sobre o tema aqui: http://scarium.com.br/noficcao/edgar04.html.

O Duplo:

Requeresse a um momento em que o personagem de uma história encontra seu duplo/cópia por vezes uma reprodução muito fiel  e  idêntico a ele. Em geral trabalha com a situação de estranhamente deste contato e a leves sutilezas entre os personagens.

 (*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):

SMANIOTTO, Edgar Indalecio. Sequência Didática:  Meu outro eu. Professor Edgar Smaniotto’s Blog, 11 de setembro de 2011. Disponível em: <https://professoredgarsmaniotto.wordpress.com/2011/09/11/sequencia-didatica-meu-outro-eu/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem os colchetes].

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Publicado em Língua Portuguesa, Literatura Infantil, Produção de Texto, Sequências Didáticas | Deixe um comentário

Diálogos Vygotskianos: apropriação do pensamento de Vygotsky por Lipman.

 Por Edgar Indalecio Smaniotto
RESENHA
1.            Identidade da Obra:
LIPMAN, Matthew. NATASHA: Diálogos Vygotskianos. Trad. Lólio Lourenço de Oliveira. Porto Alegre/RS: Artes Médicas, 1997.
2. Notícias sobre o Autor:
 Matthew  Lipman  é  professor  de  Filosofia  e  criador  do  “Institute  for  the  Advancement of  Philosophy  for  Children” da  Montclair  State  College,  em  Nova  Jersey.  Seu programa de filosofia para crianças consiste na  adaptação   das  idéias filosóficas  básicas  ao  universo  das  crianças, permitindo  o desenvolvimento das  habilidades  de  pensar  criticamente  e  relacionar  os  sentidos  das  coisas .  Este programa esta disseminado por dezenas de nações e atende milhares de crianças, inclusive no Brasil.
  3.  Breve resumo da Obra:
  Os divertidos diálogos de Matthew Lipman, oscilando com leveza entre o fato e a ficção, apresentam uma investigação recíproca sobre a psicologia soviética histórico-cultural de  Lev. S. Vygotsky  e a filosofia norte-americana pragmatista do programa de filosofia para crianças do próprio Matthew Lipman. São seções, ou visitas, sobre importantes problemas educacionais. Seguimos nesta resenha a exposição temática original do autor.
 Primeira Visita:  O professor facilitador e o  texto mediador.
 Nesta primeira visita Matthew Limpam explica para Natasha, sua aluna fictícia, que o professor deve ser apenas um facilitador que apresenta a história para a criança (no caso as suas novelas filosóficas), enquanto a própria história (o texto) se torna a mediadora entre o conhecimento e o aluno. No processo educativo o que realmente interessa para Lipmam é a melhora do pensamento do aluno, levando os estudantes a pensarem mais criativamente e mais criticamente, sempre através do diálogo.
Segunda visita: Dewey, Skatkin e Habilidades de Investigação.
 Em seu segundo encontro Limpam defende que professores não devem fazer discursos filosóficos, estes devem ser discretos e deixar que as crianças descubram as coisas por si mesmas, no decorrer do processo de aprendizagem. Para tanto, a criança deve fazer investigação no ambiente escolar, implicando desenvolver algumas habilidades necessárias para a investigação, o que é possível através do programa de filosofia para crianças. Sendo estas habilidades as seguintes: Investigação: formular hipótese e coletar evidências; Raciocinar: coordenação, extensão e justificação de conhecimento; Formação de conceitos: organização de informações difusas em conjuntos manejáveis; Tradução: habilita-se manter intactos os significados, em outros contextos.
  Terceira visita: É necessário o professor?
 Lipman nesta visita defende a idéia de uma zona de desenvolvimento proximal, estipulada por Vygotsky. Segundo esta teoria o professor deve se orientar, pelo que a criança pode fazer amanhã, recebendo ajuda agora. Nesta visita Lipman reconhece que é necessária a ajuda de um adulto para que a criança entenda suas novelas filosóficas, pois elas agem justamente sobre a chamada zona de desenvolvimento proximal. É importante para ele que o texto filosófico apresentado para a criança seja um romance, pois a narrativa consegue aborda um assunto mais intensamente, interligando e construindo significados, o que proporcionando maior entendimento por parte dos alunos. O texto deve ser lido em voz alta, para que os alunos apreendam a escutar.
 Quarta visita: Currículo.
 Nesta visita Lipman comenta a necessidade de um currículo racional, pois ele considera que as disciplinas não devem ser um monte de informações, a ser dado dia a dia, aos poucos. Ele propõe um currículo alternativo. Cada assunto deve desdobrar-se, construir sobre si mesmo, questionar-se, iluminar-se parte a dentro e erguer pontes com as outras disciplinas.Para que isso ocorra ele vê como único método alternativo o uso da narrativa ao invés da aula expositiva. Já que para ele não é importante que o professor ensine toda a matéria, mas que o aluno adquira os significados do assunto.
 Quinta visita: A Filosofia no currículo.
Se o objetivo da filosofia (como estipulado por Lipman) é levar o pensamento da criança do medíocre para o da ordem superior, os instrumentos para fazer isso devem ser independentes de conteúdos, ou seja, devem seguir um método. Como a filosofia além de ter um conteúdo, é abstrata e carregada de significados, ela deve ser a molécula essencial dos primeiros anos de educação, pois tem a qualidade de ser abstrata, ter significado e ser um método de pensamento.
 Sexta visita: O que é Filosofia?
 Lipman vê a filosofia como uma disciplina que tem funções analíticas, se cada disciplina é critica quanto ao seu próprio conhecimento, a filosofia engloba a crítica destas críticas mediante de critérios e padrões.  Assim quando uma criança apresenta uma razão para algo que disse, ela não esta fazendo filosofia, já quando ela apresenta uma razão para considerar sua primeira razão uma boa razão, ela faz filosofia. A segunda função de filosofia para Lipman é a de análise, ou seja, de construir sistemas de idéias com o qual tudo quanto acontece seja coerente. Então para estarem fazendo filosofia, as crianças devem formar quadros de referencia de idéias, de modo que tudo o que aconteça em suas vidas adquira significado dentro de suas estruturas cognitivas, e assim estarão sendo filosóficas.
 Sétima visita: Romances de Filosofia.
 Neste capitulo são apresentados os tipos de romances filosóficos e Lipman classifica seus livros dentro do esquema do que ele considera literatura filosófica e romancista. Romances de filosofações: Thomas Mann e Alexei TolstoyRomances escritos a partir de um ponto de vista filosófico específico: Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Simone de Beauvoir;Romances com perspectiva filosófica específica: O Pequeno Príncipe; Romances que tratam de idéias: Aldous Huxley e D.H. Lawrence.  Lipman não classifica seus “romances” como pertencentes a nenhum dos classificados acima, mas como um gênero totalmente novo, que segue os seguintes critérios: Tenta parafrasear o ultimo discurso de Trasímaco, na República de Platão; entremear construção de habilidades com formação de conceitos, como Sócrates, no Eutífron; utiliza-se do modelo de diálogo das obras de Diderot. Ou seja, suas obras buscam discutir conceitos filosóficos e não serem modelos de boa literatura.
 Oitava visita: Do abstrato para o concreto.
 Nesta visita Lipman afirma que a Filosofia para Crianças é o único representante válido das idéias educacionais de John Dewey postas em prática. Entretanto, apesar de sua preferência por Dewey, ele também afirma que seu currículo representa toda a tradição ocidental de maneira equitativa e desapaixonada, assim como uma enciclopédia. Lipman retorna então a esfera de explicações abstrato/concreto, ressaltando a necessidade de que a criança compreenda uma rede de significados abstratos, para então ser capaz de interpretar o mundo concreto. O que para Lipman é justamente o objetivo do programa de Filosofia para Crianças.
 Nona visita: Filosofia para Crianças um modelo de aplicação de Vygotsky.
 Nesta nona visita Lipman critica a postura dos atuais psicólogos educacionais que estão tão preocupados em conciliar as idéias de Vygotsky e Piaget, que não se preocupam em achar modelos de idéias Vygotskianas postas em prática. Entretanto ele vê como uma obra excelente a antologia chamada Vygotsky and Education,que contém um artigo “Teaching mind in Society: Teaching, Schooling and Literate Discourse”, de Ronald Gallimore e Ronald Tharp. Neste artigo eles propõem modelos de como o professor pode intervir na zona de desenvolvimento proximal, seja por modelagens, questionamento e etc; e também por um modo de intervenção chamado “estruturação cognitiva”, que tem por objetivo fornecer ao aluno uma estrutura de pensar e agir. Para os dois pesquisadores esta pode ser fornecida por: Visões de Mundo, filosofias, sistemas éticos, teorias cientificas, e teologias religiosas. Lipman vê nessa maneira de intervir na zona de desenvolvimento proximal um campo profícuo para sua Filosofia para Crianças, uma vez que este programa justamente se encaixa no tipo de intervenção proposta por Ronald Gallimore e Ronald Tharp.  Além disso, a Filosofia para Crianças também tem por objetivo fornecer ao aluno uma estrutura de pensar e agir, o que torna este programa o único estruturado no mundo que pode fornecer o tipo de intervenção na zona de desenvolvimento proximal que atende as propostas de Vygotsky. Em outras palavras é um modelo de aplicação de idéias Vygotskianas.
 Décima visita:  O texto enquadrador.
 Esta última conversa com Natasha é dedicada ao texto em si, ele define texto como um complexo coerente de signos, esse complexo de signos pode ser traduzível e receptível. É aquilo que vincula-se ao sistema de linguagem usado em sua confecção. O texto enquadrador é por sua vez o contexto do texto, o que implica refutar e questionar toda a investigação dentro do texto. Assim o diálogo acontece e desenvolve-se entre estes dois textos que se encontram (o texto e o texto enquadrador), e é esse diálogo uma transcrição de pensamentos que por sua vez é inerente as ciências humanas. No caso da Filosofia para Crianças o texto são as obras de Lipman, a parte irreprodutível é aquela inerente a Lipman (seus propósitos e interpretações do seu próprio texto, o que ele esperava destes textos), o contexto onde acontece o diálogo e a produção de pensamento, é a comunidade de investigação em sala de aula.
 4. Metodologia Utilizada pelo Autor.
 Matthew Lipman consegue construir um texto na confluência entre o ensaio filosófico e o romance. Com a pretensão de aproximar seu programa de filosofia para crianças com as contribuições teóricas da psicologia histórico-cultural de  Lev. S. Vygotsky. Em dez seções, ou visitas, onde dialoga com a aluna Natacha, uma  personagem fictícia, Lipman não apenas faz está aproximação entre sua própria filosofia e a psicologia histórico-cultural, como estabelece uma série de considerações e críticas sobre importantes problemas educacionais.
 5. Conclusões Possibilitadas pela leitura da obra.
 Esta é uma obra que permite ao leitor interessado seja em filosofia, educação ou psicologia, tomar contato com duas vertentes importantes do pensamento pedagógico atual: filosofia para crianças e psicologia histórico-cultural, com rigor e prazer. Ao mesmo tempo possibilita ao leitor um excelente exercício comparativo entre duas teorias gestadas em diferentes países, sob diferentes regimes políticos e econômicos, e ainda assim complementares. Uma leitura indispensável!
  (*) Para citar esse artigo (ABNT, NBR 6023):
SMANIOTTO, Edgar Indalecio. Diálogos Vygotskianos: apropriação do pensamento de Vygotsky por Lipman. Professor Edgar Smaniotto’s Blog, 03 de setembro de 2011. Disponível em: < https://professoredgarsmaniotto.wordpress.com/2011/09/03/dialogosvygotskianos/>. Acesso em: [coloque aqui a data em que você acessou esse artigo, sem os colchetes].

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